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Festival MED voltou a reunir milhares em Loulé

para uma experiência inesquecível ao som das músicas do mundo

Já não é novidade: o Festival MED atrai sempre uma legião de fãs da World Music à Zona Histórica de Loulé e quando o cartaz integra nomes sonantes desta indústria a adesão é ainda mais significativa. E foi isso mesmo que aconteceu nesta 19ª edição que, de 29 de junho a 1 de julho, levou ao coração do Algarve a multiculturalidade.

Ruas cheias de gente, palcos com plateias entusiastas, espaços inusitados a servir de palco às mais surpreendentes manifestações artísticas… Foi assim ao longo dos três, mas foi sobretudo no sábado que o MED viveu mais uma das suas enchentes históricas, com lotação esgotada.

Em retrospetiva dos pontos altos desta festa global, no arranque do Festival, quinta-feira, o Largo da Matriz foi pequeno para os festivaleiros que quiserem ouvir as sonoridades tradicionais da África Ocidental, com pinceladas de R&B, pela voz de um dos mais conceituados projetos da World Music. O aclamado “Dimanche à Bamaku” que levou Amadou&Mariam à ribalta, fez parte deste alinhamento em Loulé que deixou, uma vez mais, o público rendido a duo no seu regresso a esta cidade.

Outro dos concertos que entra para o “top+” deste Festival foi o de Horace Andy. A lenda do reggae viria também a ter casa cheia e a contagiar uma plateia entusiasta. Uma sonoridade que está quase sempre presente no MED e, ainda por cima desta vez com um histórico da Jamaica que também ficou conhecido pela colaboração com os Massive Attack. Vibrações positivas invadiram o recinto, num concerto com muitos clássicos revisitados.
A música lusa do dia de arranque esteve igualmente em destaque, com mais um projeto de um dos grandes criadores portugueses. O músico Tó Trips, que pela quarta vez integrou o cartaz do MED – duas vezes com os Dead Combo e o ano passado a solo, para musicar um dos cineconcertos do Cinema MED –, veio desta vez com o seu Club Makumba. Foi uma explosão sonora, onde as influências que vão da Bacia do Mediterrâneo às costas de África deram cor ao virtuosismo da banda.

Foram também as cores nacionais que estiveram em foco na noite de sexta-feira. Pedro Mafama está a despontar como um dos nomes da nova vaga da música portuguesa e não foi por acaso que um público em grande número, sobretudo jovens, compareceu no Palco Chafariz para acompanhar o artista que veio aqui com o novo trabalho, “Estava no abismo mas dei um passo em frente”. O mediático “O Preço Certo” ou “Lacrau” foram músicas cantadas em coro pela plateia. O artista retribuiu o calor dos fãs com muita energia em palco.

Tomoro protagonizaram um daqueles momentos que, pela originalidade, surpreenderam e proporcionaram uma experiência única a quem esteve no Palco Castelo. Com uma simplicidade sonorosa assente sobretudo na tradição musical japonesa, este duo que junta percussão e flauta, deixou atónito quem assistiu a um concerto único, onde não faltaram inclusive interpretações de compositores de música clássica.

Na entrada para o último dia, sábado, a voz de protesto da brasileira Bia Ferreira fez-se ouvir bem alto. Há um ano esteve no Cineteatro Louletano para um espetáculo integrado na apresentação desta edição do MED e este ano subiu ao Palco Chafariz.

A música cabo-verdiana é já um clássico do Festival MED e este ano foram os Bulimundo que tiveram a responsabilidade de trazer as harmonias de um país que tem em Loulé uma numerosa comunidade. A banda, que celebra 45 anos de vida, foi a grande responsável por elevar o Funaná ao estatuto do novo pop do país e foi com estes ritmos plenos do calor de África que o Palco Matriz se tornou um salão de baile para todos os que aqui estiveram.

Foi neste mesmo palco que ecoaram os temas de sempre dos Sétima Legião. A banda veio a Loulé celebrar 40 anos de vida, num concerto muito especial e quase único, e os fãs disseram “Presente!”. Claro que “Sete Mares” ou “Por quem não esqueci” levaram a plateia (a rebentar pelas costuras) ao rubro.

Para um sábado com lotação esgotada também contribuiu em muito a presença do sírio Omar Souleyman, já que desde o momento em que foi anunciada a sua presença no MED, a curiosidade da parte do público era muita, sobretudo pela personagem de certa forma “kitsh” que envolve o artista. E o que aqui se viveu representa bem o que é o espírito do MED: ao lado de uma igreja onde todos os domingos é celebrada a eucaristia, esteve um público em êxtase a ouvir e a deliciar-se com a música onde as influências turcas, curdas e árabes estão de mãos dadas com a eletrónica.

Muitos outros artistas passaram por Loulé, dos nomes consolidados com largos anos de carreira, aos jovens que agora estão a surgir, de Portugal e dos quatro cantos do mundo. E não foi só na Matriz, Cerca, Chafariz, Castelo ou Hammam. Pelos palcos mais pequenos, como o Calcinha, o MED Classic ou nas Bicas Velhas, também passou muito público, ávido de experienciar algo diferente.

Mas o MED faz-se de muitas outras valências para além da música e foi possível assistir a momentos de Literatura do mundo no edifício do Atlético, Cinema na recriada sala junto à Galeria de Arte do Convento do Espírito Santo ou a artes de ruas. Os muitos grupos de animação de rua trouxeram a interação com o público de dois deles vieram do Paraguai e do México, com um folclore cheio de cor e movimento. A sua presença deve-se à parceria entre o Município de Loulé e a Casa da América Latina e prevê-se que, nos próximos anos, surjam novidades no âmbito desta cooperação.

Este domingo teve lugar o “Open Day”, com o recinto aberto para que o público teve a oportunidade de observar um pouco do que é o Festival MED. Além da componente gastronómica, com show-cookings de valorização da dieta mediterrânica, foi igualmente apresentado o Loulé Jazz’23. O Cinema MED decorreu no Cineteatro Louletano, com a projeção do filme “A Viagem do Rei”, de Roger Mor e João Pedro Moreira, uma viagem pela cabeça do poeta e provocador Rui Reininho. Seguiu-se um show-case do artista nesta casa de espetáculos.

Um festival com uma pegada verde, preocupado com o futuro do Planeta e com a introdução de medidas que promovam a sustentabilidade ambiental é também a marca deste evento. O MED incorporou em 2023 os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 das Nações Unidas, um compromisso que passa pela igualdade de género (ODS 5), trabalho digno e crescimento económico (ODS 8), reduzir as desigualdades (ODS 10), cidades e comunidades sustentáveis (ODS 11), produção e consumo sustentáveis (ODS 12), ação climática (ODS 13) e parcerias para a implementação dos objetivos (ODS 17). Mas também um trabalho para a erradicação da pobreza, através da associação ao Movimento Zero Desperdício. Este ano, foram 897 as refeições resgatadas pela equipa da Refood e distribuídas a 9 instituições. Desta forma foram evitados 448 kg de resíduos e a emissão de perto de 2 toneladas de CO2.

Por outro lado, e um pouco à semelhança do que tinha acontecido em 2022, o MED desafiou alguns incubados do Loulé Design Lab para criarem peças decorativas para alguns espaços do recinto, através da utilização de materiais já usados. Este processo criativo teve como resultado um jardim vertical, puffs feitos a partir de lonas e com enchimento de lã de ovelha churra algarvia ou um pórtico feito com rolos de cartão.

Os milhares de visitantes que passam por Loulé nestes dias levam daqui uma experiência única, ao contrário do que acontece com outros festivais que acontecem pelo país. Desde logo, o ambiente que se vive no casco antigo da cidade onde o legado islâmico se faz sentir em cada pedra da calçada mas sobretudo nos Banhos Islâmicos. Mas também um certo tipicismo associado ao imaginário mediterrânico, a combinar com as sonoridades que e com todo o programa cultural apresentado, diferenciador, multidisciplinar e, acima multicultural.

“Somos um festival fora da mainstream e isso faz toda a diferença. As pessoas vêm aqui não só pelos artistas mas sobretudo pelo conjunto de experiências sensoriais que podem ter, o que não acontece noutros eventos. Estamos muito felizes pois conseguimos, uma vez mais, proporcionar essas experiências enriquecedoras a quem por aqui passou, seja por via da música ou por um simples degustar de um prato de comida árabe, pela leitura de um poema ou pela visualização de um filme, por dar um pezinho de dança numa discoteca improvisada no quintal de uma casa ou um encontro de amigos neste cruzamento de gentes de vários pontos do Globo”, refere o diretor do Festival, Carlos Carmo.

Em 2024 o Festival MED celebra 20 anos, uma data redonda que será celebrada de forma especial. O presidente da Autarquia levanta um pouco do véu do que se irá passar. “Estamos muito empenhados para que seja uma grande edição e por isso estamos a preparar algumas novidades. Iremos, pela primeira vez, ter um país estrangeiro convidado, e o primeiro será Marrocos. São nossos vizinhos, uma geografia cultural diferente mas que importa conhecer melhor. Mas haverá muito mais para celebrarmos este momento e em breve começaremos a anunciar o que se prevê”, adianta o autarca Vítor Aleixo.

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