EvilTokens: nova ameaça que compromete contas sem roubar credenciais
A ESET, maior empresa europeia de cibersegurança, alerta para o aparecimento de uma nova e sofisticada técnica de phishing denominada EvilTokens, que está a ser utilizada pelos cibercriminosos para comprometer contas Microsoft 365 sem necessidade de roubar credenciais ou criar páginas falsas de autenticação.
A ameaça, identificada em campanhas ativas desde pelo menos fevereiro de 2026, explora o fluxo legítimo de autenticação OAuth 2.0 Device Code da Microsoft, permitindo aos atacantes obter acesso autorizado a contas através da manipulação dos próprios utilizadores.
Segundo a ESET, esta abordagem representa uma evolução significativa das técnicas tradicionais de phishing, uma vez que elimina muitos dos sinais de alerta que normalmente ajudam as vítimas a identificar uma tentativa de fraude.
«Os EvilTokens demonstram que os atacantes já não dependem exclusivamente do roubo de palavras-passe para comprometer uma organização. Estamos perante uma técnica que explora a confiança dos utilizadores em processos legítimos de autenticação, transformando-os involuntariamente em participantes do ataque», afirma Ricardo Neves, Responsável de Comunicação da ESET Portugal.
Como funciona o ataque?
Antes da tentativa de comprometimento, os atacantes realizam uma fase de reconhecimento para validar se a conta alvo se encontra ativa. Posteriormente, enviam um email ou uma mensagem que simula documentos partilhados, faturas, convites para reuniões ou pedidos de acesso a plataformas empresariais.
Ao clicar na ligação, a vítima é encaminhada para uma página fraudulenta, que imita uma marca ou serviço confiável, com frases simples como “Verifique para visualizar” ou “Assinatura necessária” e apresenta um código de dispositivo e instrui o utilizador a introduzi-lo no portal legítimo de autenticação da Microsoft.
A vítima, inadvertidamente, autentica-se e aprova a sessão iniciada pelo atacante. Como consequência, são emitidos tokens válidos de acesso e atualização que permitem aos criminosos aceder a serviços como Outlook, Teams, SharePoint, OneDrive e outros recursos associados à conta comprometida. Ou seja, todo o processo ocorre através de páginas legítimas da Microsoft.
O fluxo de código de dispositivo OAuth foi projetado para dispositivos nos quais o login direto pode ser complicado, como Smart TVs ou impressoras. O dispositivo exibe um código curto que o utilizador insere numa página da Microsoft noutro dispositivo, geralmente um smartphone, e conclui a autenticação. A Microsoft emite os tokens de acesso para o dispositivo que solicitou o acesso.
Essa separação é útil, mas abre espaço para abusos. Os atacantes podem gerar o código e enganar a vítima para que o insira, enquanto a Microsoft vê apenas um fluxo de autenticação válido.
Os EvilTokens representam uma mudança importante no panorama das ameaças, uma vez que reduzem a eficácia de alguns dos mecanismos de deteção mais utilizados pelos colaboradores.
«Durante anos instruímos os utilizadores a verificar URLs suspeitos, erros ortográficos ou páginas de login falsas. Neste caso, a página é verdadeira, o domínio é legítimo e o processo de autenticação funciona exatamente como esperado. O que está a ser explorado é o contexto e não a tecnologia», acrescenta.
Além disso, a técnica demonstra que a autenticação multifator (MFA), embora continue a ser indispensável, não elimina todos os riscos associados à engenharia social.
Como reduzir o risco?
Algumas orientações práticas para proteger dos EvilTokens:
- Restringir completamente o fluxo de código do dispositivo sempre que não for necessário;
- Implementar políticas de Acesso Condicional para limitar a utilização deste mecanismo;
- Ficar atento a autenticações incomuns por código de dispositivo, dispositivos desconhecidos, logins arriscados e uso suspeito de tokens;
- Sensibilizar os colaboradores para novas formas de phishing que não envolvem roubo direto de credenciais;
- Estabelecer procedimentos rápidos para revogação de sessões e invalidação de tokens comprometidos.
O fator humano continua a ser o principal alvo
Para a ESET, o surgimento dos EvilTokens confirma uma tendência crescente no ecossistema da cibercriminalidade: a exploração de mecanismos legítimos e da confiança dos utilizadores em vez da exploração direta de vulnerabilidades técnicas.
«Os atacantes estão a adaptar-se às melhorias tecnológicas implementadas pelas organizações. Quando já não conseguem roubar palavras-passe, procuram formas de convencer os utilizadores a conceder acesso por iniciativa própria. É precisamente isso que torna os EvilTokens particularmente perigosos», conclui Ricardo Neves.



