Há um certo tom de nostalgia escolar que atravessa George Washington, Young Washington no título original, a nova aposta cinematográfica da Angel Studios lançada estrategicamente para o feriado do 4 de julho.
Realizado por Jon Erwin, este drama de aventura militar propõe-se a ser uma contraprogramação tradicionalista, quase de cariz conservador, desenhada à imagem daquelas biografias de “grandes homens” que se liam na escola. Contudo, apesar do seu estilo de hagiografia — transformando o primeiro presidente dos EUA num santo de gesso —, a longa-metragem tem o mérito de não camuflar as enormes dificuldades que o jovem George enfrentou na sua juventude.

Entre a estética de passarela e o xadrez político
No papel principal encontramos William Franklyn-Miller, cuja fisionomia alta, esguia e excessivamente bela parece saída de um catálogo de moda contemporâneo ou de um hipotético reboot da saga Twilight. Embora esta beleza de modelo destoe da época e dificilmente se ligue à imagem mítica que guardamos do Washington maduro, o ator entrega uma prestação competente. Franklyn-Miller dota George de um temperamento intempestivo e de um desejo instintivo por justiça.
A narrativa recorre a flashbacks da infância para justificar esta fúria interior: após a morte do pai, impedido de continuar os estudos, o jovem parecia condenado a ser um mero rendeiro em Mount Vernon. É o seu meio-irmão mais velho e abastado, Lawrence (John Foss), quem assume a sua educação e lhe incute a máxima que dita as regras do filme, inspirada no xadrez: “Até um peão pode comer o rei.”
O batismo de fogo no Ohio
O fulcro da ação decorre em 1755, no dealbar da Guerra Franco-Indígena. Aos 23 anos, Washington assume o posto de oficial do Exército Provincial apenas porque aceita uma missão que mais ninguém queria: liderar uma milícia de 150 voluntários pelo Território do Ohio para expulsar os franceses. A primeira batalha resulta num autêntico banho de sangue, onde os homens são ceifados quase à sorte pelo fogo dos mosquetes. Todos menos Washington, cuja valentia em campo começa a desenhar o mito de que gozava de uma proteção quase mística.

O argumento expõe de forma crua as ironias do imperialismo britânico. George partilha do desejo de pertença a esse império, embora choque constantemente com o esnobismo do sistema aristocrático. A ironia maior surge na aliança de conveniência com os nativos Seneca, que repudiam os franceses, mas desconfiam igualmente dos ingleses. Numa das cenas mais solenes do filme, o líder indígena Tanacharison (interpretado com solenidade por Ryan Begay) avisa: “Esta terra não vos pertence. Enquanto se matam uns aos outros, nós esperamos para a recuperar.”
Um Elenco de Luxo para uma Realização Estólida
Visualmente, o filme recorda os dramas históricos televisivos de há duas décadas, avançando de forma sisuda mas eficaz. Para o sucesso desta fórmula contribui o luxuoso elenco de apoio:
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Ben Kingsley: Dá vida ao administrador colonial Robert Dinwiddie com uma arrogância dissimulada.
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Kelsey Grammer: Interpreta o abastado Lord Fairfax, o benfeitor que ampara Washington após o seu primeiro e humilhante fracasso militar.
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Andy Serkis: Surge num registo tempestuoso como o General Braddock, de quem Washington se torna ajudante de campo.
É sob a asa de Braddock que George se transforma no líder que estava destinado a ser. Na reta final, o filme abraça o cinema de ação puro, mostrando Washington a cavalgar de forma destemida, alternando golpes de espada com disparos certeiros. É por esta altura que Tanacharison o reconhece como um guerreiro predestinado.
A génese da guerrilha
Nos seus momentos finais, Young Washington mostra os primórdios da revolta americana através de detalhes subtis, como a escolha dos uniformes azuis por parte dos soldados locais, idealizados para camuflagem. O contraste com os “casacos vermelhos” britânicos serve de metáfora: os ingleses, habituados a batalhas de campo aberto, acreditavam-se invencíveis, ignorando que os americanos seriam os pioneiros da guerra de guerrilha.
O filme de Jon Erwin cumpre os mínimos olímpicos para despertar aquele patriotismo inocente dos livros de infância. Trata-se de um entretenimento competente e inofensivo, desde que o espetador adulto não confunda esta visão romantizada do heroísmo com as verdadeiras e complexas lições da História.
Sinopse:
Antes de ser o Pai de uma Nação, foi um soldado a lutar para sobreviver. Um único passo em falso atira o jovem George Washington para o centro de um conflito à escala global, pondo à prova a sua honra, lealdade e coragem. À medida que as alianças ruem e a fronteira explode em guerra, terá de enfrentar não só os seus inimigos, mas também o homem em que se está a tornar. Esta é a história nunca contada do jovem George Washington.



