Review > A grandeza de um gigante histórico: «De Gaulle: Resistência» cumpre a promessa do cinema espectáculo
Antonin Baudry assina uma superprodução à antiga que, entre o épico de guerra e o thriller político, encontra no dinamismo dos seus protagonistas o motor para um entretenimento histórico eficaz e envolvente.
Há qualquer coisa de irresistivelmente nostálgica na forma como Antonin Baudry aborda a figura tutelar da história francesa moderna. Tendo tido a sua estreia mundial no Festival de Cannes, De Gaulle: Resistência chega agora às salas nacionais com a imponência de um blockbuster à antiga: grandioso, orgulhosamente patriótico e sem qualquer pudor em abraçar os excessos do cinema espectáculo. Ao longo de 160 minutos — longo, mas que raramente perde o fôlego —, o filme navega pelo heroísmo e pela astúcia estratégica do homem que recusou aceitar a capitulação da França perante a Alemanha nazi.

O grande triunfo da fita reside na sua inteligência estrutural. O argumentista e realizador (com a colaboração de Bérénice Vila) juntou duas narrativas paralelas, pela mestria da montagem, assinada por Rehman Nizar Ali e Katie McQueary. De um lado, acompanhamos o General Charles de Gaulle no seu exílio britânico; do outro, a trajetória trágica de Fernand Bonnier de La Chapelle (uma interpretação vibrante de Florian Lesieur), o jovem monárquico de 20 anos que assassinou o Marechal François Darlan em Argel. É no contraste entre a disciplina estratégica do velho general e o idealismo frágil da resistência no terreno — onde se destaca também a presença de Anamaria Vartolomei — que a obra encontra a sua pulsação dramática mais refinada, evocando a tensão sufocante dos thrillers políticos de Costa-Gavras.

No centro deste dispositivo monumental surge a prestação magnética de Simon Abkarian. Sob o icónico kepi, o ator confere ao General uma rigidez física impecável, mas pontuada por uma secreta vulnerabilidade. As cenas partilhadas com Winston Churchill — interpretado por um formidável Simon Russell Beale — transformam-se em autênticos duelos de sagacidade e afeto contido, roçando quase a dinâmica de uma bromance diplomática no meio da tempestade global. O elenco secundário, recheado de nomes cimeiros como Mathieu Kassovitz, Benoît Magimel e Niels Schneider, garante uma densidade dramática que sustenta a escala da produção.

Embora não evite algumas armadilhas típicas do biopic histórico — nomeadamente certos diálogos demasiado expositivos e figuras que parecem atuar com a presciência do destino —, Baudry compensa essas rigidezes com uma mestria técnica assinalável. Com o apoio da banda sonora explosiva de Volker Bertelmann e de sequências de batalha orquestradas com precisão, o cineasta demonstra a mesma elasticidade narrativa que já exibira no tenso O Canto do Lobo (2019).
Mais do que um mero exercício de reconstituição de época, De Gaulle: Resistência funciona como um lembrete vivo e atual da verdadeira natureza do patriotismo e dos perigos do fascismo. Fica lançada a fasquia para a segunda parte deste díptico, De Gaulle: Liberdade, num regresso ao cinema de grande escala que reconcilia o rigor da memória com a força do entretenimento popular.

SINOPSE
Junho de 1940. A França desmorona-se e assina o armistício. No meio do caos, um homem recusa-se a desistir. Sozinho contra todas as probabilidades, este general desconhecido foge para Londres, determinado a salvar o que resta da liberdade. Sem exército, sem apoios, sem esperança. Mas movido por uma convicção irracional: a França, a sua França, não depôs as armas.
Numa aposta derradeira, procura convencer o mundo de que a batalha por França não terminou, nem está perdida. A realidade, porém, é implacável e parece determinada a provar-lhe que está errado. Ainda assim, pouco a pouco, resistentes, estudantes rebeldes e soldados determinados erguem-se na Inglaterra, na França e na África para se juntarem à causa. A sua fé, audácia e sede de liberdade desafiam aquilo que a História parecia ter escrito de antemão.



