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Trovador à vista: a longa travessia de Ivandro cumpre finalmente o seu desígnio

O autor de canções incontornáveis como “Lua”, “Moça” ou “Como Tu” edita agora o seu primeiro álbum de estúdio a solo.

A travessia foi longa, mas veio a cumprir-se. Para Ivandro, o lugar cimeiro não é posto desconhecido, ainda que a sua discografia se espalhe por fragmentos que, até à data, se distanciavam no tempo da sua própria existência autoral. Agora, há terra firme à vista, com Trovador à frente de uma rota cada vez mais definida por Joaquim Ivandro Paulo. Porque devagar se chega longe, mesmo quando esse horizonte não seja palpável. Nesta sede, mais do que ver para crer, basta-nos ouvir.
“A viagem é feita de altos e baixos, tanto o ódio como o amor podem transformar-se em música, e foi isso que a vida me ensinou a fazer. Esta é a minha vida em melodias”, confidencia-nos o próprio sobre um disco que, em boa verdade, já vem a ser construído desde 2021. A começar pela “Moça” e em direcção à “Lua”, Trovador foi ganhando forma sem se fazer deliberadamente. Levou o devido tempo a erguer-se enquanto corpo artístico, amadurecido também por força da experiência que encontros com gente como Bispo, Slow J, Gson, Mizzy Miles, Piruka, FRANKIEONTHEGUITAR, Bárbara Bandeira, Julinho KSD ou Vitor Kley lhe trouxeram.
Esses cruzamentos vieram a proporcionar tantos outros, com figuras maiores como António Zambujo, Marisa Liz, Slow J (mais uma vez) ou M Huncho (nome incontornável da música urbana britânica contemporânea), que se evidenciam num leque impressionante de músicos envolvidos neste primeiro disco. E, mais do que o peso dos nomes propriamente ditos, ficam as trocas de impressões irrepetíveis com um fim maior em vista. Porque, novamente nas palavras de quem por defeito saberá, melhor do que ninguém, falar sobre o que tem em mãos, alinharam-se chakras, pintaram-se telas de várias cores e chegou-se onde menos se esperava entre palavras e melodias. “As canções são um diálogo entre as nossas almas, onde encontrei equilíbrio entre o ódio e o amor. Agora sei que isso é a vida”, resume nas poucas palavras que o turbilhão de sentimentos em ver a obra concluída lhe permite.
Ivandro x SBSR em Sintonia © Margarida Rodrigues – Portugalinews
Nessa perspectiva, apresentar enfim o seu álbum de estreia acaba por ser uma conquista incomparável às que o levaram, por exemplo, a participar no Festival da Canção em 2023, a ser nomeado, primeiro, e a vencer, depois, dois galardões dos Prémios PLAY (enquanto Melhor Artista Masculino e autor da Canção do Ano em 2022), ou a ser sucessivamente o artista nacional mais ouvido nas plataformas digitais e rádios. Ouros e múltiplas Platinas iluminam o caminho que se pretende seguir, mas por si só não deixam de poder cair em tesouro afundado. Daí que o cantor e compositor luso-angolano não se tenha iludido com o seu próprio sucesso, muito menos apressando-o. O verdadeiro espírito de Trovador é, aliás, esse mesmo: saber que os ventos vão soprando em direcções opostas, sem perder, porém, a confiança na trajectória que o guia ao longo da grande jornada.
Ivandro > 2023.08.20 > Festival O Sol da Caparica ©Luís M. Serrão – ineews
A própria estrutura deste álbum de estreia que resultou de anos de trabalho reflecte essa imprevisibilidade constante que a própria vida nos — e a Ivandro em particular — impõe. Há desespero na calmaria, mas também euforia na tempestade. Canções que nos levam do R&B melancólico ao drill reivindicativo, da pop desoladora ao afro revigorante.
Já aquilo que fica é alguém fiel a si mesmo do princípio ao fim, da partida à chegada, compenetrado onde quis chegar, sem negligenciar por onde haveria de passar. Bússola afinada, coordenadas calibradas e uma crença desmedida na viagem a que se propôs. Nunca sozinho: heróis só se fazem com aliados. E este não poderia ter contado com comitiva mais capaz. Só assim viria a chegar onde sempre quis — e fez por — estar. Nesse aspecto, o mérito é todo seu. “Às vezes só temos uma oportunidade para falar verdade”, confessa-nos já na despedida da última faixa do disco, canção homónima do seu primeiro longa-duração. E uma oportunidade bastou-lhe para dar voz à sua verdade. Não há ficção nas histórias de um Trovador.
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